Playlist

Playlist: Belchior

Resultado de imagem para belchior
Filho de bodegueiro, sobrinho de boêmios. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, cearense de Sobral. Cantador de feira, poeta. Seminarista por um tempo, quando de lá saiu em 1965, veio conhecer a música dos Beatles, que desde 1962 já existiam. Teve influências visíveis em sua música da poética direta de um Dylan.

Afastava-se dos concretos…

A minha alucinação é suportar o dia a dia

e o meu delírio é experiência com coisas reais.”

…diria o poeta/cantor em Alucinação. Alguns até aproximariam esse estilo direto de canções/poesia sujas de vida do estilo de Ferreira Gullar – uma vida quase palpável, diante da voz rouca e do tom de lamúria. Flertou com os Tropicalistas, quiçá mais no sentido de recepção da música estrangeira, sobretudo os já citados Beatles e Dylan. Há claras referências musicais aos dois, embora Belchior acompanhe suas canções essencialmente dos ritmos nordestinos e cearenses, com letras extremamente particulares.

Cinco anos antes de Alucinação ganhar as emissoras de rádio, Belchior era um estudante de Medicina da UFC. Circulava em importantes corredores da cultura de Fortaleza – como o Bar do Anísio, na Beira Mar – e trabalhava no programa da TV Ceará Porque Hoje é Sábado, que apresentou a nova geração da música local. Mas foi em 1971, em uma viagem cheia de percalços, que Belchior conseguiu projetar suas composições nacionalmente. Deixou para trás a faculdade e a vida em Fortaleza. Juntou os pertences e foi para o Rio de Janeiro.

Eu decidi de repente e de um dia para o outro fui embora, sem documentos da escola e sem dinheiro. As coisas foram bastante complicadas e difíceis porque além de não conhecer ninguém, eu tava com o orgulho do pobre: ‘Se é pra vencer, vou vencer de qualquer jeito'”

À época da viagem, além da faculdade e do programa de televisão, ele era professor em escolas de Fortaleza. Belchior foi um dos cearenses a embarcar para o circuito “Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo”. Junto dele estavam Fausto Nilo, Teti, Rodger Rogério. Todos amigos e parceiros de música.

Belchior teve uma infância de menino livre, que roubava ata no quintal do vizinho, louco que era pela fruta. O pai era comerciante e cada irmão tinha que se virar. “Então, eu fazia máscaras de Carnaval, pegava galinhas, pombas…”, revelou. É o terceiro filho do casal Dolores Gomes Fontenelle Fernandes e Otávio Belchior Fernandes.

À época, o menino já demonstrava tendência para as letras, as artes e a filosofia. Era apaixonado por livros, por bibliotecas e por todo tipo de leitura. Ainda adolescente, substituía os professores de matemática, história e português. Gostava dos autores clássicos, da literatura erudita, dos idiomas estrangeiros. Tinha especial interesse por latim. Mais tarde, a inteligência rendeu vaga no Liceu do Ceará, no Seminário de Guaramiranga e o primeiro lugar no vestibular de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Foi no Liceu que Belchior conheceu Fausto Nilo, que ele definia como “meu parceiro e grande compositor brasileiro”. Naquele tempo, nenhum dos dois pensava na música como carreira. O jovem Fausto, hoje um renomado arquiteto, gostava de desenhar. Já Belchior continuava com leituras afiadas sobre temas humanos. Juntos, eles caminhavam pela rua Liberato Barroso, até o Centro, para ir ao cinema. “No primeiro científico, ele não apareceu. Não se matriculou. E desapareceu”, lembra Fausto Nilo.

O arquiteto terminou os estudos da escola sem a presença do companheiro de caminhadas. Em 1962 ou 1963, na rua Major Facundo, escutou uma voz: “Fausto, como vai?”. Era Belchior, com roupas de frade. “Ele me deu muitos conselhos de como conduzir minha vida. Fiquei desorientado. Era meu amigo com aquela compenetração. Fiquei parado. Ele foi andando no rumo da Duque de Caxias e eu fiquei olhando muito tempo. Até que ele desapareceu”, recorda Fausto.

Resultado de imagem para belchior jovemBelchior era um sedutor, diz a cantora Amelinha. “Com sua voz rouca, sua conversa afiada, agradável, divertida, e com seus abraços carinhosos. Um sedutor com jeito de índio, meio santo e meio profano, acho que pelo fato de ter estudado filosofia com os frades e estudado Medicina, mais o talento pessoal. Ele tinha uma facilidade de criar e recriar histórias. A mesma história ele contava de formas diferentes. As mulheres se derretiam e os homens ficavam fascinados com sua performance elegante”, aponta a intérprete que gravou uma música do amigo no disco Janelas do Brasil (2011).

Por trás do mito há um intelectual que traduz do grego para o inglês, lê Dante Alighieri, é fluente em língua latina e se apaixonou pela sonoridade dos Beatles. Por trás do mito há um homem de conhecimentos teológicos e fluente em latim. Tota Batista, amigo e ex-sócio de Belchior, lembra do bem-querer do compositor pela terra natal, Sobral, para onde o acompanhou em várias ocasiões. “Ele contava histórias com medo de eu dormir na direção. Às vezes, pegava o violão, botava os pés no painel do carro e tocava Fagner, Ednardo, Bob Dylan”, conta Tota.

Por trás do mito, há um cancioneiro, um poeta, um artista plástico. Por trás do mito, há um 70 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. O homem, não apenas o cantor e compositor, é querido por dezenas de amigos – músicos ou não – que recordam das peripécias de Belchior com ternura e saudade.

O ano de 1976 foi decisivo na carreira de Antonio Carlos Belchior. Então com 29 anos e morando em São Paulo, ele já trazia na bagagem os compactos Na Hora do Almoço e Sorry, Baby, além do primeiro álbum, chamado Belchior, de 1974. Na curta trajetória artística, o compositor tinha ainda no currículo a vitória no Festival Universitário da Canção Popular (1971), da TV Tupi, com a música Na hora do Almoço. Belchior, contudo, ainda não havia sido, de fato, projetado no País.

Resultado de imagem para belchior jovem

Foi Elis Regina quem mudou os rumos do jovem artista, ao incluir Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais no repertório do LP Falso Brilhante, lançado no começo de 1976. As músicas explodiram no País e, em maio daquele ano, também estavam no segundo LP de Belchior, o antológico Alucinação. O disco reverbera até hoje, 40 anos após sua concepção.

Além de Elis, o Alucinação foi realizado graças ao então produtor da gravadora Philips, Marco Mazzola, que acreditou naquele cearense de voz anasalada e suas letras intrigantes. “Eu já produzia a Elis, tinha uma ligação muito grande com ela. Um dia, ela me mostrou algumas músicas do Belchior e eu falei que o cara era muito bom”

Belchior é conhecido por ser um compositor de poucas parcerias e isto fica muito claro no disco Alucinação, em que todas as 11 faixas foram feitas apenas por ele. Esse caminho quase solitário de composição se traduz em uma obra impregnada da personalidade do autor, que escreveu sobre suas memórias, seus sentimentos e suas impressões de mundo.

Resultado de imagem para belchior jovem

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes ou, para nós que nos apropriamos de seus sons e palavras, apenas o rapaz latino-americano Belchior. O mago das palavras, o atento leitor de seu tempo, que tão bem transpôs as dores, denúncias, novos comportamentos do mundo para as suas belas canções. Escrevo “suas” em respeito aos direitos autorais, mas poderia dizer que a obra deste trovador cearense-nordestino-brasileiro-universal é nossa. Belchior é um dos marcos mais importantes da nossa música.

Sua voz com timbragem meio rouca, nordestina, soa de forma exótica para os padrões estéticos das décadas de 1960 e 1970. Ao lado de Fagner, de voz rasgada, quase agressiva, de um sobrevivente em meio ao campo de batalha da indústria fonográfica e ao lado de Ednardo que interpreta a cultura em sonoras melodias, Belchior se destaca entre os artistas da década de 1970 por sua habilidade com as palavras. O trovador do Pessoal do Ceará!

Fonte: O Povo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s